19 de outubro de 2009

Pequenos detalhes da vida igrejeira


Graças ao Twitter, comecei a acompanhar o Diário de uma Corte, um conto muito interessante que está sendo escrito pela @Batizada em seu blog Meu Milagre. A estória ainda está em seu início, mas já promete ser extremamente interessante, por abordar a vida de uma adolescente sem os clichês que estamos acostumados nas leituras gospel comuns. A estória é contada do ponto de vista da adolescente, mostrando abertamente seus pensamentos, medos e anseios.
 
Mas não vou ficar aqui contando a estória. Se quiser saber mais acesse o blog Meu Milagre e acompanhe a estória de perto. Quero falar aqui de alguns detalhes não muito agradáveis do dia a dia na igreja que muitas vezes passam despercebidos por nós, seja por causa do costume com tais fatos ou por puro comodismo.

Como a abordagem da autora não está presa a falsos moralismos, ela faz despontar na narrativa alguns fatos que poderiam até mesmo passar como normais por algumas pessoas, visto que estamos muito acostumados com eles, mas que chamaram muito a minha atenção:

A pregação usada como mural de recados.

"Já estou vendo meu pai no culto de domingo avisando que os líderes não podem ficar faltando essas reuniões por causa de chuva. Como sempre, lá vem sermão…"

É incrivelmente assustador o número de vezes em que vemos a pregação, que deveria ser o compartilhamento do conhecimento acerca das coisas de Deus, ser usado para chamar a atenção de alguns sobre temas pontuais. Algumas pessoas parecem acreditar que constranger as pessoas tratando de seus assuntos muitas vezes pessoais daquele lugar a um metro acima dos outros é mais eficaz que uma conversa franca e direta.

É como se acreditassem que ao subir no altar fossem dotados de poderes especiais e imunidade total, permitindo que falem (velada ou até mesmo abertamente) dos erros de membros da congregação e isso se torne a coisa mais normal do mundo.

Se alguns faltam a uma reunião, o assunto da pregação é o compromisso.
Se o caixa da igreja anda mal, fala-se exaustivamente de dízimos e ofertas.
Se aparece uma fofoca sobre a vida de algum membro o acusando dos considerados "pecados da carne", santidade será o próximo assunto do púlpito.

E isso é quando não surgem comentários diretos, causando extremo constrangimento aos envolvidos.

Esquecem da riqueza das relações pessoais, da eficácia de uma conversa franca, direta e reservada. E quando isso se torna uma constante na congregação, as pregações perdem seu sentido e passam a ser apenas um meio prático de manobra do rebanho na direção mais conveniente par os que lideram.

O controle toma o lugar da confiança

"na mesma hora ele ligou para o Joel, o líder dos jovens da minha igreja, e falou que ele deveria ir já que muitos adolescentes do grupo iriam"

Entendo perfeitamente a preocupação de um pai (que no caso citado é também o pastor) com sua filha, entendo que ele quer que os adolescentes de sua igreja tenham um acompanhamento em suas vidas. Mas o que não entendo é quando esse acompanhamento se torna uma forma de rédea na vida das pessoas. Eu acredito firmemente que educar é melhor que controlar, acredito que quando adolescentes são submetidos a um monitoramento intenso de tudo o que fazem eles sentem como se as pessoas não acreditassem neles, e isso os impede de amadurecer essa relação de confiança com seus pais e líderes. Lembrando também que essa presença constante de uma figura de controle impede com que os adolescentes conversem mais abertamente entre si e criem laços verdadeiros de amizade e confiança, porque convenhamos: não é sobre tudo que um adolescente se sente a vontade para falar com uma figura de autoridade, nesses assuntos eles recorrem à amizade.

Isso me fez lembrar um fato que ocorreu comigo:

Certa vez (eu tinha uns 18 a 19 anos) estávamos eu e um grupo de amigos, da igreja, jogando sinuca em certo bar aqui na cidade. Poucos dias depois chega perto da minha mãe uma "irmã" da igreja e é travado o seguinte diálogo:
- Seu filho e os amigos foram vistos no bar tal jogando sinuca e enchendo a cara.
- Que ele estava em um bar: eu não duvido. Jogando sinuca? Eu tenho certeza que estava. Mas se embriagando? Com certeza não.
- Mas como você pode falar isso se você não viu?
- Eu conheço o filho que criei.


Isso foi o fim da discussão. Contra uma relação recíproca de confiança não existem armas.

O medo do adolescente em não corresponder aos padrões impostos

"mas comigo a pressão é maior afinal sou a filha do pastor."

O padrão religioso evangélico atual cria vários modelos nos quais as pessoas, incluindo os jovens e adolescentes, precisam se enquadrar. Não é só os que vivem uma relação de parentesco com os líderes, como nossa protagonista, que sofrem isso. A pressão para se adequar a regras que muitas vezes nem mesmo se entendem é um peso muito grande para se carregar.

Tenta-se limitar o comportamento das pessoas as impedindo de certas coisas em uma busca inútil de blindá-la dos acontecimento ditos seculares. Mas como já disse: essa busca é inútil. Invariavelmente pessoas cometerão erros, isso está enraizado em nossa natureza e é essencial para nosso amadurecimento. Porém como sentem medo de não se encaixar no padrão imposto, ao errar essas pessoas simplesmente escondem seus erros com medo do julgamento dos outros. E, sozinhos, não conseguem aprender com os próprios erros.

Não estou aqui defendendo a anarquia religiosa. Não estou dizendo que pessoas devem ser educadas sem regras. Estou dizendo sim, que regras devem ser entendidas e aceitas, não impostas.

Nossas vidas são moldadas por diversos paradigmas, e na maioria das vezes eles não são ruins. Porém devemos sempre questioná-los, pois só CONHECENDO a verdade é que ela irá nos libertar.

Por hora, paro por aqui. Mas use o espaço dos comentários e diga você também quais comportamentos ditos normais você considera nocivos.

Vivendo, errando e aprendendo,
Martins

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13 comentários:

  1. Olá Martins,

    Obrigada por esse texto! Não imagina o quanto me incentivou a continuar com meu sonho de termos mais e mais literaturas que falam das angústias dos jovens cristãos.

    Quero te agradecer imensamente. O seu apoio moveu meu coração.
    Fico feliz, também, por ver que meus pensamentos vão de encontro com o seu. Muitos dos comentários colocados neste post são exatamente o que estou tentando demonstrar em doses homeopáticas no conto.

    Novamente muito obrigada e parabéns pelo blog, ele é fenomenal!

    Abs e que Deus o abençoe muito! Ainda mais!

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  2. @Batizada,

    Eu também agradeço seu apoio e agradeço também por você escrever, pois não existe nada melhor para ler do que uma estória bem contada. E como eu disse no tuiter: pode contar sempre comigo.

    O Cabeça de Crente também nasceu com esse objetivo de falar com os jovens. E estou buscando me aperceiçoar nesse objetivo: falar de jovem pra jovem, ser um espaço para debater idéias.

    Abraço,
    Martins

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  3. Querido irmão,

    ainda não conhecia o seu blog.

    Muito edificante.

    Estarei sempre visitando.

    Forte abraço.

    alexmaltta.blogspot.com
    Evangelho da Graça

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  4. Paz, irmão, também não conhecia o blog, já gostei da proposta. O que aconteceu com sua conta do photobucket lá em cima rsrs? Tem muita coisa na igreja que consideramos normal, mas nunca nos explicaram porque. É o tipo de coisa que ninguém sabe porque não pode, só sabe que não pode. Bom, eu gosto de saber as coisas baseadas na Bíblia. Um exemplo: jogar na loteria é pecado? Se é, qual a base bíblica?
    Grande abraço, e não esquece de dar uma força no www.broderjames.wordpress.com que está começando.
    Broder James

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  5. Sabe.. essas cobranças se tornam as vezes o principal desgosto do jovem nas igrejas. Acredito que podemos atribuir a isso, uma falta de inteligência emocional da liderança.
    Eu realmente me compadeço de filhos de pastores. É uma grande vitória quando eles não piram! Cabe a seus pais não lhes pesarem com cargas que não lhes pertencem.

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  6. Bom dia!!! Gostaria que me enviasse um e-mail para contato.

    Abraços

    andreiaribeiro@mundocristao.com.br

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  7. Ei ... deus tem mãe ????? Pq se tiver ela é a maior P*** que existe / existiu, pq ele é o maio FDP da história da humanidade..... Por favor retardados, leiam a bíblia, livro do maldito jó, onde o suposto todo poderosão deus precisou PROVAR pro diabo que ele era fodão...... depois, leiam apocalips, onde o deusão se mostra egoísta não querendo que ninguem siga satã e matando todo mundo na terra que ele rejeitou, mas que não podiam adorar outro..... vão estudar vão.... "pelo amor de deus" hasuuashuhaushuahs

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  8. Os anônimos são hilários. Discutem sem contexto e não fazem a mínima idéia do que estão falando.

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  9. hasuhaushuhashs...... e tu tem idéia do que ta falando ??? Tem prova palpável pra tua defesa ???

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  10. Ótimo post.

    Não conhecia o blog, mas vou seguir acompanhando.

    Paz

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  11. Maravilhoso o post.
    Sabe, concordo com tudo que você escreveu, mas também fui confrontada com coisas que não concordo e acabo praticando!
    Liderança é coisa complicada! Ah, se não fora a misericórdia!
    Mas foi ótima a reflexão! Como diz você:
    "Vivendo, errando e aprendendo"!
    Obrigada por me abençoar,

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  12. Graça e paz!
    Estive aqui para conhecer seu Blog e quero lhe parabenizar por esta bênção. Já me tornei sua seguidora.
    Deixo meu convite para que dê uma passada lá no PASTORAGENTE.BLOGSPOT.COM., onde exponho da forma mais divertida e realista possível, as histórias de uma pastora comum como eu.
    Se quiser seguir o blog será uma honra para mim.
    Que 2010 seja uma bênção, com muita saúde e graça do Pai.
    Abração!!!

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  13. Peço desculpas ao leitores do blog pela minha ausência nos comntários. E aviso que estou de volta ao blog.

    Vamo que vamo...

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