8 de outubro de 2008

Os crentes e a cegueira


Com o alvoroço em torno do filme Ensaio sobre a Cegueira, baseado na obra de Saramago, fiquei com muita vontade de ler o livro e acabei de concluir a leitura.
Foi aterrador ver a igreja refletida nos atos dos cegos em vários momentos.

A obra é sobre uma sociedade que passa a viver envolta em uma cegueira coletiva. O que é mais curioso sobre essa cegueira é que os cegos não são envolvidos por “trevas”, como normalmente acontece. Como dizem no livro, não é uma cegueira negra mas um “mal-branco”, como se fosse uma luz tão intensa que os impede de ver.

Esse foi o momento em que comecei a traçar alguns paralelos entre o Ensaio e a igreja. Perguntei a mim mesmo:
Será que estamos vivendo assim, cegos pela luz?
Será que estamos transformando a Luz, que outrora nos fez ver a verdade, em venda para os nossos olhos?

Lendo também o texto do Enzo Almeida senti um grande ímpeto de transcrever aqui os pensamentos que estavam borbulhando em minha cabeça.

Realmente o que parece é que muitos de nós estão se fechando em um pequeno mundo de promessas de prosperidade. Guardando toda a luz que poderia iluminar a vida de multidões dentro de nossos próprio olhos ela acaba por nos cegar, impedindo que vejamos que ao nosso redor muitos precisam dessa Luz.

Ao ver todos os cegos sendo colocados juntos, logo imaginei que estes iriam se organizar para viver melhor e mais dignamente. Ledo engano. Tudo o que vi foi a implantação do caos. Ao invés de formarem um único corpo, se dividem em facções que só se importam com os que estão dentro do mesmo quarto. Aqueles que foram os primeiros a serem colocados ali até esboçam uma tentativa de organizar aquela “ nova sociedade”, mas se vêem impedidos pelo crescimento desordenado ao qual são submetidos e, por medo de não serem aceitos, abandonam qualquer idéia de organização e passam a viver como um povo separado dentro de outro povo separado. E é destes que parte o primeiro grande sinal de egoísmo e segregação:

“Que os outros enterrem seus próprios mortos”

Quem conseguia ver julgou preciso se fazer de cego para sobreviver, guardando entre poucos o segredo de que podia ver todo o caos em que estavam vivendo. Mas isso me fez vê-la como o pior de todos o cegos, aquele que consegue ver mas por omissão e medo de servir se esconde da responsabilidade de guiar todo um povo.
Passam a viver sob o caos e só conseguem viver com um mínimo de ordem quando esta os é imposta a eles através da força, tirando o pouco de dignidade que os restava. E neste momento são subjugados por outros cegos...

Fiquei pensando o quão mais bela seira a estória se aquela única pessoa que podia ver tomasse para si a responsabilidade de reorganizar aquela sociedade, de ajudar as pessoas a conviver e viver com essa nova situação. Até a última página aguardei pelo heroísmo e pela martirização em prol do bem comum, aguardei ansiosamente pela adoção da tarefa hercúlea por aquela que ainda via. Mas entendi que se isso acontecesse essa obra deixaria de ser um retrato tão fiel da realidade.

Só ai percebi que o egoísmo não era apenas daquela que tinha um certo poder mas, principalmente, daqueles que se acostumaram a viver em meio a sua sujeira, foi o conformismo que os fez viver como animais e não a omissão dos “poderosos”. Se conformaram a viver naquela situação deplorável enquanto sua dose diária de prosperidade era entregue. E quando aqueles ditos malvados se apoderaram da fonte de suas “bençãos”, sua revolta durou pouco pois era muito mais pagar o preço pelo alimento do que reivindicar o que deveriam receber de graça, pois se decidissem lutar alguns poderiam ficar pelo caminho.
Mas a fonte cessou. E a mais ancestral necessidade veio à tona: a fome. Naquele momento cheguei a imaginar uma maravilhosa rebelião contra aquela situação, mas o que vi foram poucos tentarem lutar enquanto a maioria esperava deitada pelos despojos de uma batalha da qual não participaram.

Só a proximidade com a morte os fez buscarem a saída, mas estavam tão acostumados a viver ali que não perceberam que ninguém mais os prendia.

Aí pude perceber que essa responsabilidade não era apenas daquela mulher que enxergava. Aqueles que tinham alguém para os guiar, não se importavam com a situação de tantos outros que não contavam com essa ajuda, em vagos momentos se lembravam de seu entes mais próximos e de suas posses materiais. E todos os outros vagavam atrás do escasso alimento esperando por alguém que tomasse para si uma responsabilidade que deveria partir de cada um. Enquanto se mantessem vivos não se importariam com nada mais senão sua próxima refeição, que só os faria continuar sobrevivendo em meio ao caos. Em poucos momentos se falou de organização, mas nada foi feito.

Tenho medo que passemos a viver no extremo dessa situação: vagando por alimento, vendo o próximo como inimigo, e se conformando a cada dia com uma situação que só piora.

E uma coisa não sai da minha cabeça, não foram trevas que os cegaram...

Tentando arrumar um tempinho para ver o filme,
Martins

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